Partilha Nossa Página no Facebook O dilema das Chuvas em Luanda ~ Canal 82 | Agência de Notícias

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O dilema das Chuvas em Luanda



A chuva que começou agora a cair na capital do país, quase há-de intensificar até Abril, fez surgir, como é hábito nesta altura do ano desde que Luanda é cidade, lamentos e protestos de quem a habita.


O problema é cíclico, bem como as queixas que com frequência se revestem, pela gravidade de situações, de desesperança e indignação, a par de críticas, muitas vezes levianas, de quem parece ter nascido com o indicador apontado a culpados estabelecidos.


Os lamentos, os choros, até as raivas, de quem vê a chuva inundar-lhes a casa, destruir tudo o que encontra no caminho, “lavras de quintal”, partir a árvore que lhe dá a sombra dos almoços de sábado e de domingo são entendíveis e merecem solidariedade. Do mesmo modo, é compreensível o desespero de quem para sair de casa tem de recorrer à imaginação e malabarismo ou a caminho do trabalho e no do regresso percebe que o carro está imobilizado num buraco ou pela força da água. Incompreensível - não surpreendente - é a atitude dos “especialistas em tudo” que, por ignorância ou má-fé, encontram nos efeitos da chuva - como nos da seca… - para culparem o Governo Provincial e o Executivo.

Como se o problema fosse de hoje, como se Luanda, mesmo com uma população muitíssimo menos numerosa, não os tivesse, não os vivesse desde os tempos mais remotos.

Nestas alturas, lembro-me com frequência de uma noite de juventude, na primeira metade da década de 60, que começou radiosa, cheia de perspectiva da “aventura do desconhecido”, e terminou em tormenta. Eu, o Menino, que é o José Ribeiro, tio do actual director deste jornal, e o Nini, que ainda não era Ngongo, muito menos general, deputado, ex-ministro. Sequer guerrilheiro, embora já nessa altura borbulhasse em nós o fervor nacionalista. Em parte por influência de livros que me chegavam às escondidas da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, que lia e dava a ler, da Colecção Imbondeiro, que tinha sede no Lubango, mas também do primeiro “Jornal de Angola”, editado pela Associação dos Naturais de Angola (Anangola), no qual colaboravam vários intelectuais, que acabou encerrado pela polícia política do regime salazarista. 

Naquele dia, que começou radioso e terminou em temporal, vestimos os três as melhores calças e camisas, puxámos lustro aos sapatos, esquecemos as nossas farras de quintal e partimos à aventura da nova noite pequeno-burguesa de Luanda, instalada no cume de um arranha-céus da Marginal, explorada por uma família belga que viera recentemente da actual Kinshasa. À entrada, olharam-nos desconfiados. Mas íamos “limpos e bem vestidos”. Além disso, já começara em Angola a luta armada de libertação nacional e eles tinham vivido os “acontecimentos do Congo”. Com dinheiro contado e recontado, ficámo-nos pelos sumos. Bem nos arrependemos. As “bejecas” não eram mais caras, nem levavam gelo a encher os copos. O “consumo mínimo”, pago à entrada, permitia-nos escolher entre cerveja, sumo ou gasosa. 

Não nos avisaram. Da mesa do canto onde nos sentaram, podíamos ver a avenida, ainda um arremedo do que é hoje, com as luzes dos reclames reflectidas na baía. Mas, a vista que mais nos interessava era da sala salpicada de tons psicadélicos, onde pares dançavam ao som de uma banda. De repente, um estrondo, o prédio a parecer que ia desabar, a escuridão absoluta, a fala da chuva zangada, gritos histéricos. A seguir, silêncio recortado por conversas surdinadas, gemidos, ais. Mais trovões, relâmpagos a permitir-nos ver pares abraçados em pé ou sobre as mesas. Não estávamos ali a fazer nada. Saímos. Os elevadores não funcionavam. Descemos agarrados às paredes, julgo que doze andares. Cá em baixo, a água parecia saída de uma barragem. A caída das nuvens e a do mar abraçadas na fúria destruidora. 

Com água pelos joelhos, seguimos para casa. Sem sabermos que as ruas estavam cheias de buracos, fios eléctricos soltos. Mas, ao chegarmos à Mutamba, parámos de olhos arregalados e de “boca para a nuca”. Havia viaturas soterradas pela lama, que cobria também os bancos dos passageiros se sentarem à espera dos machimbombos, candeeiros e árvores por terra.
Os jornais diários do dia seguinte encheram páginas e páginas com o balanço dos estragos e fotos da situação. Luanda era um mar de lama. Na actual rua Rainha Ginga, ainda eram visíveis artigos arrastados dos estabelecimentos comerciais pela força das águas: roupas, canetas, relógios, electodomésticos, peças de artesanato.

As barrocas que ligavam o Bungo ao Quinaxixe desapareceram. O Colégio das Irmãzinhas, que permanece no mesmo sítio, ficou pendurado, é o termo, e foi motivo de romarias.  
As zonas suburbanas, como é evidente, foram as mais castigadas pelo temporal. Matutinos e vespertinos centraram as atenções na cidade asfaltada, tal como fizeram posteriormente os semanários. O “Jornal de Angola”, da Anangola, coordenado então por Fernando Norberto de Castro, titulou a toda a largura da primeira página: “No musseque também choveu”. O periódico foi retirado de circulação.

Esta chuvada, das maiores, porventura a maior, do último século caída em Luanda, ocorreu quando a cidade tinha, no máximo, meio milhão de habitantes. O problema que continua a afectar a capital tem solução? De certeza que sim, mas não é fácil de executar. E nunca por quem acorda todos os dias com vontade de maldizer.

JORNAL DE ANGOLA

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